6 - Educação integral

Oferecer Educação em tempo integral em, no mínimo, 50% das escolas públicas, de forma a atender, pelo menos, 25% dos(as) alunos(as) da Educação Básica.


ENTREVISTA: Qual a importância de aliar a diversidade local ao desenvolvimento da Educação Integral?

Fundação Itaú Social em 2015
A consultora Maria de Salete, que Coordenou o Programa de Educação do Unicef no Brasil de 2007 a 2014, considera que é necessário pensar em três pilares para que a educação integral trabalhe aliada à integração com a diversidade local: o território, os sujeitos envolvidos e as políticas públicas. Ela comenta, em entrevista, sobre estas questões.
Qual a importância de articular as peculiaridades locais com as políticas de educação integral? Como fazer isso?
Como ponto de partida, não se pode pensar em educação integral sem pensar nas peculiaridades locais. Considerá-las não e uma opção, mas uma obrigação. Ajuda, neste ponto, trabalhar com o conceito de território ou cidade educadora. Na educação integral partimos do sujeito, então quem vai levar para a escola as questões do território é o próprio menino ou menina ou a família deles. Não é possível dissociar a diversidade local se o território é entendido como lugar em que se processa educação integral.
Levar em conta a diversidade precisa gerar respeito às diferenças e não discriminação, pois a vivência da multiplicidade faz parte da educação integral. O desafio maior é reconhecer a diferença e trazer a diversidade para que ela faça parte da educação. Isso não quer dizer tratar no modo "todos são iguais", mas assumir e lidar com as diferenças e disparidades.
Hoje no Brasil há a presença forte de imigrantes, que trazem a cultura e a língua. Em São Paulo, por exemplo, há haitianos e bolivianos, a história deles e dos pais também precisa ser considerada. Já em Salvador, a cidade mais negra do país, não é possível fazer educação integral desconsiderando a questão racial.
O estudo e implementação de políticas públicas nos territórios é de extrema importância, por isso a educação integral precisa se integrar a outras políticas públicas. Em uma área que sofre com a violência, por exemplo, a educação integral não vai dar conta disso, mas deve se aliar a outras políticas públicas para solucionar o problema.
Como garantir que a valorização das particularidades de determinada identidade cultural nos processos educacionais seja aceita em comunidades onde ela não é dominante?
Para indígenas, por exemplo, ter uma escola deles é um valor, uma luta. Uma das suas maiores reinvindicações hoje é construir escolas, o fato de ter uma escola, construída como tal, dignifica a educação indígena. Então em casos assim, talvez uma solução seja uma convivência entre escolas, porque se a ideia for ter uma escola só, mesclando índios e não-índios, isso pode ser um passo atrás para os indígenas. Promover encontros, visitas e apresentações entre as escolas pode ser enriquecedor, mais do que tentar juntar. Mas, novamente, é preciso mergulhar no local para encontrar soluções, porque é a questão das particularidades, do sujeito, e não há solução padrão.
Como alinhar as diretrizes no Plano de Educação Integral para atender as particularidades e potencialidades locais de uma mesma rede pública com diferentes tipos de oferta de Educação Integral?
O primeiro passo é reconhecer e abrir espaço para as diversidades, valorizando-as, pois assim o projeto irá abrange-las. Numa cidade em que há muitos cegos, por exemplo, como considerar isso no projeto de educação? Pode não ser uma questão de integrar fisicamente, mas integrar no projeto.
A integração com os equipamentos locais e a apropriação da cidade como um todo são fundamentais para que não se estabeleça escolas ou territórios como guetos discriminados. Assim, mesmo que existam muitas condições e possibilidades no entorno escolar, sair da periferia e ir para o centro, por exemplo, é incorporar, na educação integral, a demanda do território por não permanecer marginalizado.
Enfim, para que a diversidade entre na escola, ela não pode ter muros físicos nem pedagógicos.
Maria de Salete Silva é graduada em Arquitetura pela Universidade Federal da Bahia, teve sua atuação profissional voltada para as políticas públicas e sua implementação em territórios. De 1995 a 1996, foi Secretária de Educação do município de Salvador, de onde foi também Secretária de Administração (1993/94). Teve sua atividade profissional desenvolvida tanto nos poderes executivo quanto legislativo e também em ONGs. Coordenou o Programa de Educação do Unicef no Brasil de 2007 a 2014.